455-458

Março 2, 2009

Gustav é compositor. Há meses que ele está envolvido numa discussão candente com Säure a respeito de quem é melhor, Beethoven ou Rossini. Säure é a favor de Rossini. “Não sou pró-Beethoven enquanto Beethoven”, argumenta Gustav, “mas sim na medida em que ele representa a dialética germânica, a incorporação de um número cada vez maior de notas à escala, culminando com a democracia dodecafônica, em que todas as notas recebem a mesma atenção. Beethoven foi um dos arquitetos da liberdade musical — ele submeteu-se às exigências da história, apesar de sua surdez. Enquanto Rossini estava  se aposentando aos 36 anos de idade, correndo atrás de rabo-de-saia e engordando, Beethoven levava uma vida cheia de tragédia e grandeza.”

“E daí?” é a resposta habitual de Säure a esse raciocínio. “O que é que você preferia fazer? A questão”, interrompendo o costumeiro grito indignado de Gustav, “é que as pessoas se sentem bem quando ouvem Rossini. Quando você ouve Beethoven, você só sente vontade de invadir a Polônia. ‘Ode à Alegria’, o cacete. O cara não tinha nem senso de humor. Vou lhe dizer uma coisa”, brandindo o punho magro de velho, “tem mais Sublime na parte do tambor de La gazza ladra do que em toda a Nona Sinfonia. Em Rossini, o importante é que os amantes sempre terminam juntos, o isolamento termina, e, quer queira quer não queira, esse é o único grande movimento centrípeto da Mundo. Em meio a todas as maquinarias da cobiça, da mesquinez, do abuso do poder, o amor ocorre. Toda a merda se transmuda em ouro. As paredes são derrubadas, as galerias são escaladas — ouça!” Era uma noite no início de maio, e o bombardeio finaç de Berlim estava em andamento. Säure tinha de gritar a plenos pulmões. “A italiana está em Argel, o barbeiro está quebrando a louça, a gralha está roubando tudo o que há para roubar! O Mundo todo está confluindo…”


Nesta manhã chuvosa, no silêncio, tudo indica que a dialética germânica de Gustav chegou ao fim. Ele acaba de receber a notícia, a qual veio de Viena via alguma rede de informações de músicos, de que Anton Webern morreu. “Morto a tiros, em maio, pelos americanos. Uma coisa absurda, acidental, para quem acredita em acidentes — um cozinheiro de rancho da Carolina do Norte, um desses soldados recrutados na última hora, com um 45 que ele mal sabia usar, tarde demais para a Segunda Guerra, mas não para Webern. A desculpa para dar a busca era que o irmão de Webern estava atuando no mercado negro. E quem não está? Você imagina o mito que isso não vai virar daqui a mil anos? Os jovens bárbaros vindo para assassinar o Último Europeu, que ocupava a extremidade de um processo iniciado por Bach, uma expansão da perversão polimorfa da música até todas as notas serem verdadeiramente iguais… Para onde se poderia ir depois de Webern? Foi o momento da liberdade máxima. Tudo tinha mesmo que desabar. Outro Götterdämmerung —”

“Seu garoto idiota”, Säure aparece vindo das ruas de Berlim, arrastando uma fronha cheia de camarões de maconha recém-chegados da África do Norte. Totalmente desmazelado — olhos vermelhos e empapuçados, braços gorduchos de bebê totalmente sem pêlos, braguilha semi-aberta sem metade dos botões, os cabelos brancos e a camisa azul ambos sujos de uma gosma verde nojenta. “Caí num buraco de obus. Vamos, depressa, enrole um.”

“Que você quer dizer com ‘garoto idiota’? “indaga Gustav.

“Me refiro a você e a suas dialéticas musicais”, berra Säure. “Quer dizer que terminou tudo mesmo? Ou vamos ter que começar da capo com Carl Orff?”

Nunca pensei nisso”, diz Gustav, e por um momento fica claro que Säure também soube da morte de Webern e está tentando, à sua maneira sorrateira, animar Gustav.

“O que é que você tem contra Rossini?” grita Säure, acendendo o baseado. “Hein?

“Eca”, exclama Gustav, “eca, eca, Rossini”, e pronto, começa tudo outra vez, “seu dinossauro. Por que é que ninguém mais freqüenta as salas de concerto? Acha que é por causa da guerra? Não é nada disso, eu lhe explico, meu velho — é porque as salas de concerto estão cheias de gente como você! Cochilando, peidando, sorrindo com cuidado para a dentadura não sair do lugar, pigarreando e escarrando dentro de sacos de papel, bolando tramas cada vez mais engenhosas contra seus próprios filhos — e também contra os filhos dos outros! Vão para os concertos junto com os outros patifes de cabelo branco, e é aquele tremendo fundo sonoro de velho com peito chiando, intestino roncando, arrotando, se coçando, chupando, gemendo, a ópera inteira cheia de gente assim, sentada e em pé, cambaleando pelos corredores, dependurados das torrinhas, e sabe o que todos eles estão ouvindo, Säure, hein? Estão ouvindo Rossini! Se babando todos com um pot-pourri de melodiazinhas previsíveis, apoiando os cotovelos nos joelhos e resmungando, ‘Vamos lá, Rossini, vamos tirar essa bobajada pretensiosa toda do caminho, a gente quer mais é melodias bem bonitas!’ É uma coisa tão vergonhosa quanto c0mer um vidro inteiro de creme de amendoim de uma vez só. E lá vem a saltitante tarantela de Tancredi, e aí eles batem com o pé no chão de felicidade, estalam a língua e batucam com a bengala — ‘Ah, isto, sim!’”

“É mesmo uma melodia fantástica“, Säure grita. “Fume mais um pouco que eu vou tocar para você aqui no Bosendorfer.”

Enquanto ele toca sua tarantela, que é de fato uma excelente melodia, Magda entra, molhada de chuva da manhã, e começa a enrolar baseados para todo mundo. Entrega um a Säure para que ele o acenda. Säure pára de tocar e fica um bom tempo olhando para o charo. Balançando a cabeça de vez em quando, sorrindo ou franzindo o cenho.

Gustav debocha, mas na verdade Säure é mesmo um expoente da difícil arte da papiromancia, a capacidade de prever o futuro contemplando o modo como as pessoas enrolam baseados — a forma, a lambida, as rugas e amassados ou a ausência deles no papel. “Em breve você vai se apaixonar”, diz Säure, “veja, veja esta linha aqui.”

“É comprida, não é? Quer dizer que —”

“Comprimento costuma ser intensidade. Não duração.”

“Breve mas gostoso”, suspira Magda. “Fabelhaft, was?” Trudi vem até ela e a abraça. Aquilo é uma cena de Mutt e Jeff, Trudi de salto alto é uns bons trinta centímetros mais alta que a outra. Elas têm consciência da imagem que projetam, e andam juntas pela cidade sempre que podem, para intervir, ainda que por apenas um minuo, nas cabeças da spessoas.

“E então, o que você achou dessa coisa?” pergunta Säure.

Hübsch“, reconhece Gustav. “Um pouco stablig, e talvez um toque infinitesimal de Bodengeschmack por trás do Körper, que é, sem dúvida, süffig.”

“Pois eu diria que é spritzig“, discorda Säure, se é que está mesmo discordando. “De modo geral, mais bukettreich do que a safra do ano passado, você não acha?”

“Ah, até que para fumo Haut Atlas esse aqui tem lá sua Art. Sem dúvida pode-se dizer que é kernig, até mesmo — tal como se fala no que há de sauber na variedade que prevalece na região de Oued Nfis — genuinamente pikant.”

“Na verdade, eu diria que a origem é alguma encosta meridional de Jebel Sarho”, diz Säure — observe o Spiel, um tanto glatt e blumig, até mesmo um toque de Fülle em sua audácia würzig —”

“não, não, não, Fülle também já é exagero, o Esmeralda de El Abid do mês passado é que tinha Fülle. Este aqui, porém, é claramente mais zart que aquele.”

A verdade é que os dois estão tão zonzos que nenhum deles sabe do que está falando, o que não faz muita diferença, porque neste momento ouve-se uma batida fortíssima na porta e muitos achtungs vindos lá de fora. Slothrop grita e corre até a janela, sobe no telhado e desce do outro lado, por um cano galvanizado, no pátio seguinte, mais próximo da rua. Dentro da sala de Säure o pau está comendo. Entrou a polícia de Berlim, reforçada por PMs americanos na qualidade de consultores.

“Mostre os seus papéis!” berra o chefe da operação.

Säure sorri e exibe um maço de papéis Zig-Zag, recém importados de Paris.

Vinte minutos depois, em algum lugar do setor americano, Slothrop está passando por um cabaré onde PMs aparvalhados fazem a hora do lado de dentro e do lado de fora, e de algum lugar vem o som de um rádio ou vitrola tocando um pot-pourri de Irving Berlin. Slothrop passa todo encolhido,  paranóico, estão tocando “God Bless America”, e-e “This is the Army, Mister Jones”, e são as versões estadunidenses da canção Horst Wessel, embora lá na Jacobistrasse seja Gustav quem está esbravejando (ele não está a fim de acabar que nem Anton Webern) para um tenente-coronel americano apatetado: “Uma parábola! Uma arapuca! Vocês nunca foram imunes ao simplismo do arco sinfônico germânico, coisa de filisteu, tônica para dominante etc. Grandiosidade! Gesellschaft!”

“Teutônica?” exclama o coronel. “Dominante? A guerra acabou, meu chapa, que história é essa?”

6 Responses to “455-458”

  1. Rafael Trindade Says:

    do Gravity’s Rainbow, Thomas Pynchon. Tradução de Paulo henriques Britto.

  2. Hervan Says:

    Eu tinha *certeza* que vc tava lendo uns troço meia boca ultimamente…

  3. Rafael Trindade Says:

    mas que filho da puta!

  4. luiz Says:

    Certeza se soubesse alemão a leitura ficaria mais polômica ainda.

    E já que ele acendeu o beck, vou entrar na onda e confundir meu cadinho: cheguei de um concerto com músicas de Mozart, Tchaikovski e Brahms. Cê não sabe, mas sou fã de piano. E a composição pra piano foi Mozart. Entretanto, a do Tchaikovski superou em muito, tanto que ficou por último. E me lembrou meu prato de comida: sempre deixo o melhor pro final.

    Mas, hein, onde arruma uns trem desses pra ler?

  5. Rafael Trindade Says:

    não é nada não, Luiz, os termos em alemão; mas se quiser saber tem aqui em http://gravitys-rainbow.pynchonwiki.com/wiki/index.php?title=German_Translations (dá ctrl-F e procura “442″)

    (e também http://gravitys-rainbow.pynchonwiki.com/wiki/index.php?title=Beethoven_%26_Rossini)

  6. Rafael Trindade Says:

    e eu aqui tô lendo emprestado :) tem pra vender por aí facinho, e eu tenho original no HD (:


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