Cicero’s

Novembro 17, 2008

Oi, gente. :)

Me incomoda estar aborrecido, quando o aborrecimento não possui nenhuma sutileza. Não é que eu fique a tentar viver apenas experiências muito refinadas – estou falando de coisa bem específica, em que deveria estar presente algum espírito sutil. Por exemplo, este poema de Elizabeth Bishop (One Art):

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last,
or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Viu? É bonito, mas tem isso do imperativo que me aborrece. E aí que o incômodo, aquele de que falava acima, não tem a ver com uma coisa rude, tosca, que eu tenha encontrado. Eu fico incomodado é com me aborrecer de forma tão pouco sutil (em assuntos que exigiriam alguma sutileza, i. e., poemas, nhenhenhe). A coisa pra mim virou lei. Eu bato os olhos num imperativo em verso e digo USE FILTRO SOLAR – lembro dos mails com “textos da Clarice”, dos poemas ruins em geral, essas coisas. Esse poema, inclusive, One Art, já apareceu na minha caixa de entrada junto com o doggerel.

Mas por mais que seja esquisitinho mesmo, não pode virar lei, gente; não se pode avaliar as coisas bonitas com leis. Só que eu não consigo achar, mesmo, que um poema usando imperativos vá prestar; e aí que eu acabo de ver essa tradução aqui, no blog do Antonio Cicero, e fiquei mais feliz. Reparem como o tradutor (Nelson Archer) resolve minhas angústrias. A gente poderia falar de outras coisas, boas e ruins, nessa tradução, mas eu só queria falar disso. :)

(e o layout do blog torna a leitura um bocado difícil; eu li no google reader, nem tinha percebido. se tivesse lido lá direto ia me chatear um bocado. mas valeu)

One Response to “Cicero’s”

  1. lucas Says:

    pois é
    isso é um problema
    mas o imperativo dá altas ondas
    pra bonitas ambigüidades

    e viva nelson ascher


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