Ambrósio

Fevereiro 15, 2008

Na minha cidade passa uma estrada paralela à praia, que tem seus momentos bonitos e se chama Rodovia do Sol. Eu gosto do nome. Dia desses houve um acidente lá, e um delegado morreu. Falar de delegado morto me deixa um pouco aflito, inda mais cá da comarca; doravante vou chamá-lo Ambrósio, pra que reste alguma dúvida. Eu gosto do nome.

Eu não conhecia o delegado Ambrósio à época, soube de tudo um pouco depois. O delegado passava pela rodovia com uma mulher e uma menina de 5 anos, em uma viatura de polícia, e mascava alguma idéia menos boba quando um carro veio zúnido e bateu bem na sua porta.

Sofrer um acidente é como ser arrastado por uma onda grande quando se é bem pequeno; a onda se aproxima, enorme, eterna, aqueles instantes que duram duram sem parar; vem o choque, é inacreditável como algo que não deveria ser, como voar ou cair ou haver monstros ou ser só cabeça sem corpo; e dura dura sem parar, o capote, as coisas rolando, mas aí ninguém mais liga, como fosse sonho, como se no fundo você estivesse gostando de assistir aquilo tudo e saber que é real e é contigo.

Foi um parágrafo esquisito – eu olho pra cima e quase ruborizo – mas foi próximo do que Ambrósio se descobriu pensando. Isso e a coisa de que tinha sido cuspido e que em intensidades assim ele sempre pensava em sua família ou quem quer que estivesse em sua responsabilidade e que isso era uma tormenta e era também um cordão de prata. E pensando que pensou [e só agora] nisso é que se sentiu acordado e devolvido ao tempo normal das coisas. Levantou do asfalto, aflito. Viu o carro estraçalhado.

Quando encontrou as meninas, um tanto maltratadas, soube que estavam vivas e se sentiu mais tranqüilo. Sabia exatamente o que fazer. Estava realmente tranqüilo. Nem enxergou o outro carro, nem se preocupou com o outro motorista. E foi ao se estranhar a si sereno que descobriu seu próprio corpo, esse sim morto deveras. Ambrósio achou meio chato.

Sereno e leviano como nunca fora, Ambrósio pensou que era uma grande injustiça uma imparidade como sua própria morte ser desperdiçada por um cliché surrado, assim. Ficou olhando aquele monte de gente em volta, o rádio tocando sozinho, aquela ambiência de sonho, aquela textura diferente na vivência – texturas diferentes de quando se vive vivo, tal como as texturas de sonho e vigília, tal como transmissão da Globo não é transmissão do SBT. Enquanto esperava luzes do Céu e abismos de Baixo, Ambrósio foi testar sua leveza d’alma, e tentou flutuar, e coisas do tipo. Acabou se sentindo uma coisa que desliza em outras coisas, bem do jeito que as coisas são em sonho. Tudo muito como um sonho.

Pensava sobre o que pensava do que andava pensando desde morto, e por um rápido momento achou que a dinâmica de seus pensamentos tinha cada vez menos a ver com a habitual. Logo se esqueceu disso e começou a pensar outras coisas. Coisas que nunca vivera, coisas mais verdes, mais moles e brilhantes. Sentiu o cheiro de uma infância impossível, com plásticos de videogame. Viu, de repente, o homem que causou tudo, estava bêbado, não queria fazer o teste; parece que quem morreu era delegado, devia ser mesmo, era uma viatura; viu as meninas serem levadas ao hospital, e enquanto esquecia toda uma vida, voltou ao carro dos amigos, comentou o acidente e seguiu para casa.

Hoje, no bairro onde moro, podemos encontrá-lo no mesmo canto da praia, de dia, e nos mesmos bares à noite onde os meninos vamos. Não o conheço bem, mas o acho, assim, de longe, um bom rapaz. Podemos chamá-lo de Felipe, embora este não seja o seu nome verdadeiro. Lembro de tê-lo visto falar do acidente, tempos depois, achando triste, mas também achando muita graça. É que quem causou aquilo tudo, quem estava voltando de Guarapari bêbado e com pouca noção se chamava Joselito. E desta vez mantenho o nome de verdade. Mas nem acho engraçado.

3 Responses to “Ambrósio”

  1. ana Says:

    que prosador, gente. gostei.

  2. andreis Says:

    “tal como as texturas de sonho e vigília, tal como transmissão da Globo não é transmissão do SBT”


  3. [...] que, voltando às verdades, eu sofri um acidente semana passada. Foi feinho, houveram mortes. Realmente essas situações são lembradas como se lembra de um sonho , nem deu muito pra se assustar. Mas eu tõ bem, vivão, só usando um coletinho pequeno. Terei de [...]


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